Fazer um filme com quatro horas e meia não só é arriscado como também curioso. Curioso por se tratar de uma adaptação de um dos primeiros livros de Camilo Castelo Branco e filmado por um aclamado realizador chileno, Raúl Ruiz. E finalmente, porque há muito tempo que a crítica internacional não se rendia a um filme tão português como é "Mistérios de Lisboa". Uma novela em jeito de epopeia que atravessa o século XIX.
Alguém dizia, e bem, que os romances camilianos são como as famosas matrioskas.
Atrás de uma história,vem outra e depois outra, até à tragédia final. «Mistérios de Lisboa» é uma dessas bonecas russas.Com a particularidade que esta abre uma história, real, e relatada a Camilo Castelo Branco, que a passou para o papel em 1854.
A epopeia centra-se na história de João, que afinal é Pedro, um orfão e protegido do Padre Dinis. Um homem de muitas facetas, e que de eclesiástico tem muito pouco. No centro desta teia de relações está ainda a mãe de João, interpretada por Maria João Bastos. Uma mulher aprisionada durante anos pelo Conde Santa Bárbara.
Depois há mil e uma aventuras, paixões, adultérios, vinganças e personagens entre as quais a de Alberto de Magalhães, que fechará o ciclo de mistérios. Filmada em HD, a película é uma tragédia camiliana absoluta, mas o realizador de "Klimt" dá-lhe razões para sobreviver no grande ecrã. Planos soberbos, um jogo de luz e de sombra poucas vezes visto em filmes de época e um elenco, nacional e internacional, convincente.
Vencedor do prémio Concha de Prata de Melhor Realizador no Festival de San Sebastián, " Mistérios de Lisboa" tem a crítica a seus pés, de Toronto a Nova Iorque. De um livro português, perdido no tempo, poderá ter nascido um grande filme.
Cátia Castro















































